Lembre-se do que era ser eu
Joan Didion, Sontag e anotar para não perder o contato comigo mesma
Eu estava dando aquela “geral” na cozinha após o almoço, ouvindo um podcast, quando mencionaram um ensaio de Joan Didion sobre… manter um caderno.
Parece bobo, né? Um texto inteiro sobre ter um caderno.
Não para mim.
Lembrei na hora das duas coletâneas de ensaios dela que tenho na estante e fui checar se, por um feliz acaso, o texto estaria em alguma delas.
Bingo.

Logo no início, Didion escreve:
“O impulso de tomar notas das coisas é peculiarmente compulsivo, inexplicável para quem dele não compartilha”.
Guardadas as devidas proporções - já que nem me considero escritora, muito menos do calibre da Didion - me identifiquei de imediato: minha necessidade de tomar notas é quase desesperadora.
Juro que não sei se houve um único dia no último ano em que eu não tenha tomado uma nota pessoal sobre algo, seja no bloco de notas do celular, WhatsApp, post-its ou cadernos.
As circunstâncias também são tão variadas - talvez até mais - quanto os meios: tomo notas na cabeceira, entre as séries de exercícios na academia, enquanto estou cozinhando algo…
O impulso sempre surge. E nunca tinha parado para pensar sobre o quão “peculiar” ele talvez seja até ler aquela frase.
No entanto, mesmo sendo uma acumuladora de notas, Didion confessa nunca ter tido êxito com um diário: narrar o seu dia a dia costumava matá-la de tédio. E eu entendo o sentimento.
Quando ganhei meu primeiro diário - lembro bem: azul e rosa, folhas com desenhos e um cadeado com duas chaves -, minha mãe disse que era para escrever sobre meus dias.
Durante a infância, consegui me ater a esse tipo de registro, muitas vezes terminando as entradas com o famigerado “e foi muito legal”.
Já na adolescência, passei longos períodos sem escrever. A ideia de um “relatório burocrático” de eventos passou a não me atrair.
Até que li o primeiro volume dos diários da Susan Sontag e mudei a minha percepção do que um diário poderia ser.

(Pausa rápida: o impulso de anotar é tão forte por aqui que acabei de interromper a escrita deste texto para me mandar uma mensagem no WhatsApp sobre uma ideia que tive agora. Foco, Paloma. Voltando).
Nos diários de Sontag, havia o cotidiano? Sim.
Mas havia tão mais.
Comentários sobre o que ela sentia com livros, filmes e músicas. Lembretes. Listas de coisas que ela queria fazer. Pensamentos soltos…
Didion diz que o propósito de manter um caderno é lembrar do que era ser você. Ela faz isso registrando conversas alheias que ouve num bar ou um caranguejo (talvez fictício, segundo a própria) que comeu num almoço qualquer. Elementos inusitados que, para ela, servem como gatilhos para a memória.
Eu também acredito que a função principal do diário é a memória. O resgate de quem fomos. Mas não acho que isso dependa do retrato do cotidiano. O que eu pensei ou como me senti sobre algo diz muito mais sobre quem eu era do que um relato sobre os acontecimentos do meu dia.
Acho que a Didion vê o “caderno” do mesmo modo que eu vejo o “diário”: um espaço para anotações pessoais, cuja intenção não é ser publicado, nem sair dali, e que talvez só faça sentido para quem o escreveu - e às vezes, nem isso.
Didion finaliza o texto dizendo que já perdeu o contato com duas pessoas que ela um dia foi. Manter um caderno seria, então, uma tentativa de manter as linhas de comunicação abertas com esses “eus” do passado. Gostei tanto de como ela colocou isso.
Escrevo para que, daqui a dez anos, eu ainda tenha contato com quem eu sou hoje. Para parafrasear Didion:
Era assim que eu sentia: isso está mais perto da verdade sobre ter um caderno. Ou um diário.
E você? Por que escreve?
Caso queira esticar o papo sobre caderno/diário, indico dois materiais que já produzi que podem te ajudar a começar e a manter um:
Edição da newsletter sobre minha tentativa de criar o hábito de escrever no diário… diariamente
Episódio do meu podcast sobre os benefícios de manter um diário
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Nossa, não tinha me dado conta que era uma tomadora de notas compulsiva até ler esse texto!! Rs adorei, Paloma! E tomei nota de vários trechos! Hahahaah
Lendo aqui seu post fiquei pensando mto sobre o fato de eu não querer escrever no papel muitas vezes o que estou sentindo e ir para um report do meu cotidiano me dizer tanto sobre quando estou tentando mentir pra mim mesma. Acho que tomar notas também tem essas nuances de você parar em determinados momentos e refletir pq q querendo falar sobre x y ou z.